Os Descendentes


De André Malta 
 

Assistindo ao filme The Descendants (Os Descendentes) dirigido por Alexander Payne, pode-se ver as conseqüências de uma peça fora da máquina e a falta que ela faz. Payne coloca aqui, elementos comuns aos seus filmes como: relacionamento, adultério e o humor negro em determinados pedaços da trama. E é com um roteiro simples que Payne insere The Descendants na lista dos indicados ao Oscar de melhor filme.

Baseado no livro de Kaui Hart Hemmings, The Descendants é estrelado por George Clooney que vive o personagem Matt King, um pai atarefado com os negócios de sua família que vê sua vida mudar após o acidente de sua esposa, Elizabeth (Patricia Hastie), que está em um estado grave entre a vida e a morte. Matt fica então responsável por cuidar de suas duas filhas, a rebelde Alexandra (Shailene Woodley) e a pequena e levada Scottie (Amara Miller). 


A convivência agora mais freqüente entre pai e filhas não será nada fácil ainda mais quando Matt ficar sabendo que sua mulher teve um caso com um corretor de imóveis antes do acidente. Pressionado por todos os lados caberá a Matt superar seus problemas e dar conta dos negócios de sua família, as conseqüências da infidelidade e o estado de saúde de sua esposa e o convívio com as filhas. 

The descendants é um drama simples. Ele não te leva aos prantos, mas te prende ao filme e te convence a acompanhar a vida de um pai cheio de responsabilidades.Ponto positivo para as atuações. George Clooney chega ser realmente um misto de sofrimento e comédia na apresentação de seu personagem. O Trio adolescente, as filhas e o "genro" de Matt, também vão muito bem. A atriz Patricia Hastie, convence como a acidentada Elizabeth.


Nas belas imagens do cenário Havaiano e com as belas atuações de Clooney & cia, você é apresentado a um bom filme. Talvez não seja o melhor dos filmes indicados, admito que faltou algo para torná-lo digno de ser detentor da estatueta. Mas nem por isso The Descendants é fraco. Muito pelo contrário é um filme bonito, com enredo simples, mas aprendizado forte que nos mostra como perder a peça chave de nossa maquinaria e ainda assim manufaturar nosso futuro se recomeçarmos agora

Nota do André: 7.0


O Homem que Mudou o Jogo

De André Malta

É difícil assistir a um filme com a temática esportiva e não imaginar um enredo clichê.  Digo isso apenas para afirmar que o filme Money Ball (O Homem que mudou o jogo) apresenta uma dualidade poucas vezes existente no que se diz respeito aos clichês de filmes esportivos. E isso engrandece sua qualidade.

Mas antes de qualquer análise vamos a sinopse. Baseado em fatos reais, Money Ball conta a história de Billy Beane (Brad Pitt), o gerente geral do time de baseball do Oakland Athletics, que após mais uma derrota e a saída de seus principais jogadores tenta de alguma forma montar um bom time para temporada que se encaixe dentro de seu baixo orçamento.

A solução aparece quando ele conhece Peter Brand (Jonah Hill), um jovem economista que possui idéias inovadoras para avaliar jogadores. Utilizando fórmulas matemáticas, Peter consegue selecionar jogadores de baixo custo no mercado de baseball que consigam render tão bem, ou mais, do que estrelas do esporte. A partir daí o filme se constrói na tentativa de Billy e Peter em resolver tanto os problemas financeiros, quanto a campanha do Oakland Athletics na competição.

Sendo um dos filmes indicados ao Oscar este ano, Money Ball conta com a direção de Bennett Miller e é estrelado por Brad Pitt, Jonah Hill e Philip Seymour Hoffman. O seu trunfo está em colocar os clichês já batidos, em outros filmes de temática esportiva, em segundo plano. Nos mostrando um outro ponto de análise.


Aqui o que veremos é o fato de que por mais que achemos que já conhecemos de tudo sobre alguma coisa, a vida sempre arranja um jeito de nos provar o contrário. Em determinado ponto do filme, uma metáfora nos embute uma lição de moral: às vezes estamos tão acostumados com determinada situação que nem percebemos quando de fato a atravessamos, transcendemos o que queríamos e acertamos em algo muito maior, mesmo que não tenhamos enxergado no início.

Nos aspectos técnicos Money Ball se sai bem. O roteiro é bom, tendo em vista que por complicações internas foi reeditado três vezes, por três pessoas diferentes. No aspecto visual não fica devendo nada a outros filmes. A edição das cenas nos jogos talvez careça de mais emoção. Nada que desvie o olhar do enredo que persuade o espectador do início ao fim.

As atuações são boas, Brad Pitt e Jonah Hill completam muito bem este quesito, mas nada fantástico. Destaque para atriz Kerris Dorsey que interpreta Casey Beane, a filha de Billy, e que em poucos minutos de atuação convence não só como atriz, mas também como cantora em uma versão da música The Show da cantora Lenka que fica ecoando na mente mesmo alguns minutos após o filme.
    
Dito isto, pode-se afirmar que Money Ball é sem dúvida alguma um bom filme, indicado para se desfrutar de uma história real que poderia ser descrita com algumas “lições de moral” e apresentada como um bom entretenimento. Se faz um filme revelador para os tradicionalistas, um verdadeiro soco no estômago daqueles que se apegam as velhas idéias em detrimento das novas. É sobre como vencer sem necessariamente conquistar títulos e fazer história quando tudo vai contra ao que acredita.

Nota do André: 8.0 

O Artista


De André Malta

Admito que assisti ao filme The Artist (O Artista),  um dos indicados ao Oscar de melhor filme este ano, com um pouco de preconceito. Isso porque fiquei sabendo que era um filme mudo e em preto e branco. Daí pensei:  Será que ainda há entretenimento em  filmes assim ou deveriam ser uma mera opção para cinéfilos saudosistas e alunos do curso de cinema?

As perguntas vieram à cabeça, mas logo foram dizimadas pós dez minutos de filme. A partir daí o espectador é convidado a uma história diferente daquelas dos dias atuais, ela nos convida a voltar ao passado e como um espectador do século 20 embarcamos na história de um homem no auge de sua carreira de artista.

George Valentin é um ator de cinema mudo que faz um enorme sucesso com seus filmes ao lado do seu inseparável cãozinho. Até o dia em que conhece Peppy Miller, uma fã que acaba dando a sorte de conhecê-lo pessoalmente surgindo dessa oportunidade a vontade de se lançar na carreira de atriz. E é em um filme de George que ela tem sua primeira chance, devido a ajuda do próprio ídolo. No entanto o destino o preparava uma surpresa.

A vida de George muda por completo quando seu chefe tem a idéia de migrar do cinema mudo para o falado. George acaba subestimando a idéia, não vendo naquilo nenhum futuro. No entanto pra sua surpresa, tanto teve futuro como acaba trazendo para si o seu declínio. Não é bom falar mais do filme. No entanto deve-se dizer: Assista-o!

The Artist conta com um roteiro belíssimo, ainda mais se levando em conta o fato de ser um filme mudo, onde os diálogos presentes são feitos através de frases colocadas entre uma cena e outra. Cenografia e figurino (não levando em conta as cores por motivos óbvios) são outros destaques, transferindo a impressão de estarmos assistindo a um filme gravado realmente naquela época.

Falando-se em época, a História também é lembrada no filme por intermédio da crise de 29, retratada em uma de suas cenas. Mas nada merece ser mais digno de elogios do que as interpretações dos protagonistas de The Artist. O ator francês Jean Dujardin e a franco argentina Berenice Bejo dão um show a parte. Em um filme recheado de belas atuações até o pequeno cachorrinho de George Valentin parecia ganhar anos de estudos teatrais e acrescentar mais vida ao personagem ao contemplar o filme com uma ótima atuação (?!).

Mas o filme é só coisa boa? Poderia até ser, mas eu ainda consigo encontrar defeitos em uma obra de arte. Apesar do ótimo roteiro, fica claro entender aonde ele vai nos levar. Desde meados do filme já identificamos um provável final. Mas isso tira algum mérito de The Artist? Lógico que não. Apesar de saber aonde vai nos levar, o roteiro cria uma espécie rápida de indagações na cabeça do espectador, em certo ponto do filme nos perguntamos: “Espera aí, será mesmo que isso vai acontecer?” E sendo a resposta positiva ou não, está nesta indagação o mérito de um bom roteiro. Fazer-te esquecer de todos os seus problemas pra se concentrar somente naquilo que te é apresentado.


The Artist surge como franco favorito ao Oscar de melhor filme este ano, e não por menos. É um filme corajoso por trazer um estilo clássico, (e por que não obsoleto?) de volta as telas. Não que agora teremos franquias de filmes mudos e em preto e branco. Mas em tempos de criatividade duvidosa, sempre se é bom desfrutar de filmes com uma premissa ousada e curiosa como a de The Artist.

Nota do André: 9.0 

Histórias Cruzadas

De Evandro Oliveira

The Help, estupidamente traduzido para Histórias Cruzadas, poderia resumidamente ser classificado como um filme que aborda as questões raciais dos EUA na década de 60. Mas não é. Ele é muito mais! Abordando a intimidade de empregadas domésticas negras que trabalhavam na casa de brancos, The Help mostra o preconceito na sua faceta mais cruel, não se atendo somente as lutas políticas travadas naquela época.

Dramático na medida certa, com precisos toques cômicos e envolvente do começo ao fim, o filme mostra o bom trabalho realizado pelo diretor Tate Taylor. Liderado pela grandiosa atuação de Viola Davis e seguida pela ótima atuação de Octavia Spencer, The Help conta a história de uma jovem branca que após voltar da faculdade passa a enxergar o atraso mental e o preconceito existente em sua cidade, no Mississipi.

Buscando uma forma de combater isso, ela decide escrever um livro retratando a visão e as histórias das tais empregadas domésticas negras, e para isso tentará colher depoimentos delas. Com um orçamento longe dos milionários blockbusters, The Help não se manteve três semanas seguidas no primeiro lugar da bilheteria norte-americana à toa, com toda certeza.

Destaca-se também detalhes bem colocados no enredo que trazem o espectador ainda mais pra dentro do filme, como a moça que não arruma um marido e é mal-vista pelas amigas, a mulher que não consegue engravidar é pressionada etc. Detalhes que todos já sabem mas que em nenhum momento soa como exagero. As curiosidades ficam por conta da indicação de Jessica Chastain ao prêmio de melhor atriz coadjuvante – juntamente com Octavia Spencer – e pela “ressureição” de "Don't Think Twice, It's All Right" de Bob Dylan, gravada quase na época em que o filme se passa.

Nota do Evandro: 9.0 


Cavalo de Guerra

 

De Evandro Oliveira 

Se por um lado filmes com animais vêm se tornando cada vez mais clichê, War Horse (Cavalo de Guerra) veio mostrar que esses clichês ainda podem sim produzir bons filmes e emocionar muito o espectador.

Envolvente, War Horse conta a história de um cavalo que na Primeira Guerra Mundial é enviado da Inglaterra para França, separando-o de seu jovem dono com quem desenvolvera uma profunda amizade, que fará o possível para recuperar seu animal.

Dirigido por Steven Spielberg, de quem sempre se espera muito – ainda mais após um recesso de 4 anos – War Horse talvez seja um pouco decepcionante nesse aspecto para alguns. Não para mim. O grande companheiro de Steven, Janusz Kaminski, mostrou também que sua fotografia está afiadíssima, com lindas tomadas.

Um bom roteiro e um excepcional cineasta resultaram num prato cheio pra quem gosta do gênero, ou quem gosta de sentar na poltrona do cinema e derramar algumas lágrimas. Não creio que seja favorito ao Oscar de melhor filme – de melhor fotografia, sim – tampouco acho que esteja no mesmo nível de outras obras de Spielberg, entretanto nada disso desmerece o bom filme que é.

Destaque para a belíssima cena em que o cavalo fica preso no campo de batalha, lembrando levemente de Saving Private Ryan (O Resgate do Soldado Ryan), mostrando ao fim dela que mesmo entre adversários de guerra ainda pode haver alguma diplomacia. Uma simples curiosidade negativa que reparei: ingleses, franceses e alemães sempre falando inglês. Não custava nada colocar os diálogos na língua original e legendar.

Nota do Evandro: 8.5